Cinema não é só diversão: ele pode fazer de nós seres humanos melhores. Sobretudo no contexto de uma verdadeira maratona física e intelectual, como o Festival Internacional de Berlim. Um balanço pessoal.
A hora do Urso
Em seu ensaio em forma de filme The pervert's guide to the cinema (Guia do pervertido para o cinema), o filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Žižek explica que o cinema não nos dá o que desejamos, ele nos ensina como desejar. Por isso, seria a quintessência da arte perversa.
Embora, em princípio, concordando com Žižek, também tenho certeza que a sétima arte tem outras lições para dar, no mínimo tão edificantes quanto essa. Especialmente logo após haver sobrevivido à minha primeira Berlinale: uma superdose de impressões, imagens, histórias, sons, ideias, visões de mundo, além de uma maratona no sentido físico do termo. E a oportunidade de aprimorar uma série de virtudes pessoais. Eis algumas delas:
As quatro dimensões do tempo
Espera, raiva e ações: 'Talvez duas vidas'
Ao comentar seu Due vite per caso (Talvez duas vidas), o diretor Alessandro Aronadio afirmou que, na Itália de hoje, uma quarta e frustrante dimensão do tempo se uniu à clássica trindade – passado, presente e futuro: a dimensão da espera. É justamente a sensação de estar condenado – como toda sua geração – a esperar por algo que talvez nunca venha, que desencadeia no protagonista Matteo a raiva que o levará a decisões irrevogáveis.
Mesmo para quem esteja munido de uma miraculosa credencial de imprensa, paciência é uma virtude essencial num evento como o Festival Internacional de Cinema de Berlim. Espera-se nas filas para pegar entradas, espera-se ao chegar ao cinema, caso se queira obter um bom lugar. E quem não conseguiu pegar a tempo seu tíquete de imprensa também pode se preparar para uma longa e incerta espera. Pois agora você depende da boa vontade de quem controla a porta, para deixá-lo entrar no último minuto, caso a sala não fique lotada.
Hora e lugar certos
Cena de 'Uma mulher, um revólver...'. Zhao é o 2º a partir da esquerda
O garçom Zhao é uma figura secundária, porém central para a trama do chinês San qiang pai an jing qi (Uma mulher, um revólver e uma casa de macarrão), de Zhang Yimou. Balofo e desastrado, seu problema é não se decidir na hora certa. O patrão não lhe paga o salário devido, há um cofre, e Zhao sabe a combinação. Ele hesita, desiste, discute com sua companheira. Até que resolve agir – em má hora e pior companhia.
Confiar na própria intuição é essencial ao atravessar um festival que oferece quase 400 filmes em 11 dias. Por mais que se esteja bem informado, um press-release brilhante não garante um bom filme, as possibilidades são incontáveis, os caminhos entre algumas das salas são longos e muitos horários se superpõem, forçosamente.
Então: vou para a estreia daquele filmão mainstream do diretor de que tanto gosto ou arrisco esse obscuro documentário low budget, de tema interessantíssimo? Vou dormir mais cedo para pegar o primeiro filme de amanhã ou arrisco ainda essa última sessão? É preciso decidir rápido e ter senso de oportunidade, pois não sobra muito espaço para tentativa e erro.
Questão de equilíbrio
Tanzträume (Sonhos de dança) traz os últimos registros cinematográficos e a última entrevista com a coreógrafa alemã Pina Bausch. Os diretores Anne Linsel e Rainer Hoffmann acompanharam em 2008 os ensaios para uma remontagem especial da peça de teatro-música Kontakthof, 30 anos após sua estreia. As dificuldades para os não-dançarinos entre 14 e 18 anos, da cidade de Wuppertal, pareciam quase intransponíveis: ao longo de um punhado de ensaios, passar de seres desajeitados, que mal sabiam caminhar, a monstros do movimento – expressivos, graciosos, ferozes, fascinantes. Uma trajetória tão emocionante quanto dolorosa.
A 60ª Berlinale transcorreu durante o mais duro inverno alemão das últimas décadas. À noite, as temperaturas chegavam facilmente a uma dezena de graus negativos, e locomover-se entre uma locação e outra se tornava uma verdadeira aventura. Na melhor das hipóteses, os caminhos para pedestres estavam liberados, e o obstáculo era só a neve fofa, onde a gente se atolava até o tornozelo.
Temerário mesmo é quando a temperatura oscila rapidamente, a neve derrete, para logo em seguida tornar-se gelo sólido e escorregadio, e a municipalidade ainda não teve tempo de tomar providências. Aí, todo equilíbrio é pouco, e espectadores apressados resvalando, caindo ou voando alguns metros era uma visão comum.
'Tanzträume' registra últimas imagens de Pina Bausch
Negação como estado de graça
How much does your building weigh, Mr. Foster? (Quanto pesa o seu edifício, Mr. Foster?), de Norberto Lopez e Carlos Carcas, é um documentário ambicioso. Não só apresenta, em imagens estonteantes, as obras de Norman Foster por todo o mundo e traça uma biografia detalhada do celebrado arquiteto inglês, como se propõe revelar o homem por trás do gênio. E não há como deixar de admirar sua força e tenacidade, por exemplo, ao enfrentar o câncer e a doença cardíaca. Desenganado mais de uma vez, Foster ignorou os prognósticos dos médicos e chegou a completar uma maratona no gelo pouco após um infarto. Seu comentário: "um estado de negação (denial) é às vezes um estado de graça".
A moderna cúpula do Reichstag em Berlim é projeto de Norman Foster
Resistência: em certas situações é preciso ignorar a adversidade e tentar o impossível. Quem disse que não vou conseguir chegar ao outro lado da cidade em dez minutos? E que não aguento mais essas três horas de cinema hoje? O que importa se há mais de cem pessoas na minha frente, o frio é cortante e a bilheteria fecha em uma hora?
Sem falar que algumas das mais inesquecíveis experiências cinematográficas podem vir na contramão da opinião dos outros e mesmo da crítica especializada. Em caso de dúvida, sempre seguir a própria intuição (ver acima).
Lixo e luxo
Lixo extraordinário (Waste Land), de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley, conquistou o Prêmio do Público do festival de Berlim. O filme registra o misto de projeto artístico e ação social do artista Vik Muniz. Primeiro, ele fotografa, em poses de quadros célebres, catadores do maior aterro de lixo do mundo, no Rio de Janeiro. Com o auxílio de alguns deles, faz traçar com os dejetos o contorno das imagens, em proporções gigantescas, e volta a fotografar o resultado. As fotos de grande porte são leiloadas, a milhares de libras e dólares, e a renda reverte para os próprios catadores de materiais recicláveis.
Lixo e esperanças em 'Waste Land'
Mas como eles vão lidar com toda essa notoriedade súbita, esse vislumbre de outra vida, o salto do lixo total para o luxo? Um documentário tocante e otimista, mas que também deixa sentimentos ambivalentes.
Estar num festival assim inspira humildade – diante do talento dos inúmeros realizadores e participantes; da coragem daqueles que abordam temas explosivos em condições semi-suicidas; diante daqueles para os quais estas mesmas condições são insuportável dia-a-dia.
Mas a experiência também evoca outras formas de humildade, como a de quase poder tocar o mundo do glamour, mas saber que se está a quilômetros de distância dele. Às vezes, a tentação é grande de se juntar às massas que se acotovelam diante dos tapetes vermelhos e das saídas dos hotéis, aguardando a aparição do próximo VIP, esperando aspirar o ar de outros planetas. Quem sabe se ajoelhar diante de um ídolo pessoal ou outro?
Mas também pode acontecer de você esbarrar numa Julianne Moore ou num Leonardo di Caprio e nem notar. Pois, assim como a beleza e a riqueza, fama é uma coisa relativa. E esta é mais uma lição da "minha" Berlinale.
Autor: Augusto Valente
Revisão: Alexandre Schossler